Friday, May 16, 2008

dia 15

O pai almirante dormiu mal hoje. Agora já está óptimo, mas foi uma noite chatinha. Além do mais fica-se a matutar no assunto! Felizmente a enfermeira disse que estava tudo bem e que a cor límpida de hoje não deixava dúvidas de que está tudo a funcionar bem (e não o susto de serem os rins a começar a dar sinais de alarme. UF!!!). até às 11h já tinha bebido …4 copos de água (a contar com os dois da noite).

Durante a manhã apareceram 14 visitas e só o estoicismo, treinado durante tantos anos no mar, o deixou aguentar tamanha provação.

Ao meio dia os olhos fechavam-se-lhe mas não queria adormecer antes do almoço. E claro que o almoço hoje foi só à uma! Eu bem fui pedir às auxiliares para lhe darem o almoço em primeiro lugar, mas elas tranquilizaram-me a dizer que com certeza, e seguiram a sua rotina normal! Enfim!

Pelo menos depois dormiu o sono dos justos.

A médica psico-pedagoga tentou várias vezes conseguir um bocadinho com ele, mas não estava fácil, ou era o capelão, amigo de longa data, ou as visitas que tinham esperado meia hora que o capelão se fosse embora, ou a hora do almoço, a hora da sesta, foi mesmo difícil conseguir um bocadinho com ele!

Da parte da tarde a mãe Carmo usufruiu da sessão de relaxamento, enquanto o Almirante dormia, e veio tão tranquila que até teve coragem para não deixar as visitas entrar. Imaginem!

Assim o pai teve oportunidade para descansar um bocadinho, ler o jornal, e ir fazer uma visita ao coronel que está no quarto ao lado, sob as ordens de quem trabalhou na Guiné há 40 anos ( Como é o mundo!) e que já por várias vezes tinha sido “enxotado” para deixar o Almirante descansar.

Para mim o dia foi mais tenso. Não é fácil aceitar a morte sem estrebuchar contra tudo e todos. E ainda pior se nos questionamos se é de aceitar ou de lutar, se chegou a hora ou não. Pois para mim estas foram as dúvidas do dia, e por isso não consigo contar com tanto entusiasmo que o Almirante queria mesmo deixar a marinha e ir amanhã para o deserto do Sahara, onde de certeza que não o obrigariam a beber tanta água, pela simples razão que não a há por aquelas bandas.

A calma da tarde foi muito boa para receber tranquilamente a visita tão querida da Leo, sem hora marcada, só os dois “ de canceroso para canceroso”, como o pai gosta de dizer. O que vale é que o sentido de humor não se esmorece por dá cá aquela palha.

E viva o almirante, e nós todos que temos a sorte de o conhecer!

sofia

3 comments:

Anonymous said...

Acho que é a primeira vez que falas da morte, Sofia. Da morte, sem eufemismos, morte.

Isso é triste. E é bom ao mesmo tempo porque a morte sufoca-nos a todos enquanto a tentamos afogar nos 4 ou 5 copos de água diários.

Hoje ao ler-te apeteceu-me chorar. Não a morte. Essa enviei-a eu para o Sahara.

Apeteceu-me chorar por todos aqueles que, em momentos de provação, deixam cedo morrer a alegria de estarem vivos e de juntos celebrarem a Vida.


À Tia Carmo, ao Tio Té
O meu ETERNO "OBRIGADA" pela forma como sempre me têm ajudado a rumar à Paz interior, ao Amor com e pelo Outro, à mais bonita celebração da Vida. Por mais mil anos que passem, por mais corações que me rasguem, nada poderá arrancar os momentos que guardo dentro de mim.

Luísa said...

A morte é inevitável e é preciso ter consciência dela. Não sei se conheço a prapicia mas ela tem toda a razão quando diz "Apeteceu-me chorar por todos aqueles que, em momentos de provação, deixam cedo morrer a alegria de estarem vivos e de juntos celebrarem a Vida."- sabes certamente a que me refiro, Sofia. Admiro-te a ti e a toda a tua família, agora uma extensão também da minha... admiro o teu pai e o modo como navega neste mar... mas tem noção de uma coisa, sofia: és uma privilegiada. O mundo deu-te esta grande oportunidade de despedida... é doloroso... mas é muito diferente de não o teres feito... um grande beijo para todos. A Leonor vai de fim de semana comigo para Mafra onde espero que esteja bem e se divirta....

Anonymous said...

“Para mim o dia foi mais tenso. Não é fácil aceitar a morte sem estrebuchar contra tudo e todos. E ainda pior se nos questionamos se é de aceitar ou de lutar, se chegou a hora ou não.”

Minha querida amiga, apenas para te dizer que nunca, nunca te esqueças da fortuna e aventura de sermos filhos de quem somos. Não importa o que sentimos agora. A vida se encarregará sempre de nos testar, de nos fazer descrer ou fraquejar. Para logo tudo se resolver como uma onda, que tudo trás e tudo leva, na sua cadencia de mar infinito. Em certos momentos sentimo-nos despidos. Duvidamos. Estrebuchamos. Que estes sejam apenas curtos momentos na nossa imensa travessia. Que os mistérios da vida se façam resolver, felizes, pelos valores em nós gerados por nossos pais. A eles tudo devemos. Honra e glória ao nossos.

Um abraço do teu amigo, para sempre

Tiago Malato